Bacalhau na Geladeira #02 – A cultura da confiança

Olá Amigos,

Selfie do Prof Calhau na cidade de Hameenlinna. Fonte: Arquivo pessoal.

Esse é meu segundo post da série ‘Bacalhau na Geladeira’. Ao contrário do que alguns podem pensar, essa não é um blog de culinária. 🙂 Mas quem sabe eu não aprenda uma receita de comida finlandesa qualquer dia, e posto aqui? Por enquanto, ao menos hoje, darei foco maior em aspectos culturais que tenho percebido e que estou achando interessantes.

Tenho tido aulas de formação de professores sobre currículo baseado em competências e ambientes informais de aprendizagem, dadas por professores finlandeses. Essa é a parte formal do aprendizado a que estou exposto… Entretanto, tenho percebido também algumas coisas interessantes no meu dia a dia que, informalmente, tem me ensinado bastante sobre minha profissão.

Por exemplo: semana passada no supermercado… Ao sair, perguntei a um vigia se poderia levar o carrinho até a rua para colocar as compras no táxi. Ele olhou para mim, fez uma cara de estranhamento, e perguntou: “por que não?”. Em outras palavras, ele se perguntou porquê não confiaria em mim.

Outro exemplo ocorreu na sexta passada. Nesse dia eu fui em um complexo com piscinas. Para usufruir do espaço e nadar nesse ambiente, deve-se paga para entrar. Mas ao comprar o ticket, o rapaz perguntou se eu era estudante, pois se fosse poderia pagar a metade. Eu disse que sim, mas estava sem minha carteirinha. E ele então disse: “tudo bem, eu acredito em você”.

Percebi também que nas lojas grandes daqui são raros os dispositivos de segurança ou antifurto, alarmes etc. A cultura está fundamentada na confiança.

Outra diferença que

K-Market de Helsinki, uma das redes de mercados mais populares da Finlândia. Fonte: Wikimedia

percebi… No refeitório, todos levam a bandeja (como acontece nos restaurantes universitários no Brasil). Mas aqui, separam pratos, talheres e bandejas ao entregar. Separa-se o lixo úmido do lixo seco. No supermercado é possível que as próprias pessoas paguem suas compras com ajuda apenas de uma máquina. Lá também os consumidores pesam as frutas e legumes e colam as etiquetas com preços nas sacolas com os alimentos. Ninguém fica verificando se pesamos certo ou errado, se estamos tentando levar vantagens. Da mesma forma, no trem ou ônibus, você mesmo compra o tíquete e entra, sem entregá-lo para ninguém. Às vezes, passam pessoas verificando, e quem não tiver comprado o ticket paga uma multa. É um conjunto de hábitos muito diferentes dos nossos. Cada um faz um pouco, faz uma parte.

A premissa é que as pessoas irão agir corretamente, que ninguém vai querer levar vantagem nas situações. Viver assim é bem mais fácil. Dá bem menos trabalho para todos.

No Brasil, sabemos que é um traço forte da nossa cultura o querer receber, mais do que oferecer, ou a ‘lei de Gérson’, o ‘levar vantagem em todas as situações’. É comum ver alguns alunos perguntando, “professor, vale ponto isso?”.  Ou, “o que eu ganho com isso?”. Eles querem receber algo. E esse comportamento está nas salas de aula tanto quanto na nossa cultura.

 Essa cultura da “confiança mútua”, do “faça a sua parte” e do “tenha algo a oferecer” fazem parte da educação Finlandesa.  É realmente um objetivo nessa educação formar pessoas que façam sua parte na sociedade, que colaborem. Acredita-se que para acontecer o processo de ensino aprendizagem, esses fatores (a confiança e a colaboração) são muito importantes. São fundamentais.

 Quando nós, professores, desconfiamos dos alunos, ach

Prato comum finlândes. Batatas, salada e uma fonte de proteína. Fonte: Arquivo pessoal.

amos que vão colar na prova, copiar o trabalho, que vão querer tirar vantagens das situações, que eles não irão estudar, tomamos como premissa que agirão erroneamente e dizemos a eles, com nossas ações, que não são confiáveis.

Irei falar mais para frente sobre outras questões, dentre elas o papel da confiança na educação finlandesa. Por enquanto, vou encerrar por aqui.

Comentários, perguntas, dicas são bem vindas!

Rodrigo F. Calhau

Os textos da série “Bacalhau na geladeira” refletem a visão em primeira pessoa do Professor Rodrigo Calhau que esteve na Finlândia participando de um programa de especialização em práticas pedagógicas inovadoras na HAMK University of Applied Sciences em Hameenlina, cidade localizada a aproximadamente 100 km ao norte da capital Helsink e foram escritos entre Fevereiro e Julho de 2015. O nome da série “Bacalhau na Geladeira” corresponde a uma brincadeira com o sobrenome do autor e o clima frio do inverno finlandês.

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