Os refugiados digitais e os novos alunos

Por Damione Damito

“[…] no grupo dos novos refugiados digitais, nota-se entre eles a presença de muitos professores imigrantes digitais que, em um processo bastante traumático, foram obrigados a abandonar suas práticas analógicas do dia para a noite pois devido a necessidade do ensino remoto, o digital não é mais uma mera opção.”

A crise global provocada pela chegada do novo coronavírus forçou repentinamente a mudança de hábitos de grande parte da população, talvez a maior parte dela. Mesmo que por um breve período de tempo, foi-se necessário abandonar práticas corriqueiras como ir ao banco, frequentar as aulas na escola, fazer compra no mercado ou visitar o shopping center e, em substituição a isso, realizar compras online, pagar contas pelo celular e consumir conteúdo online foi de uma apenas uma das opções disponíveis para praticamente a única opção. Apesar destas práticas soarem como algo trivial, pôde-se notar que uma parcela considerável da população não tinha experimentado ainda essas experiências. Em 2001, o autor norte-americano Marc Prensky ao escrever o artigo “Nativos Digitais, Imigrantes Digitais” deu pistas sobre quem podem ser essas pessoas que ainda relutam em usar a tecnologia. Em seu trabalho, separou a humanidade em dois grandes grupos: aqueles que nasceram em um mundo digital completamente envolto na tecnologia e, devido a isso, possuem uma grande familiaridade com a tecnologia; e também um outro grupo, os imigrantes digitais, que são pessoas que nasceram em um mundo analógico e foram, gradativamente, levados a viverem em um mundo digital.

A mudança entre esses dois mundos, o analógico e o digital, foi suave. Por exemplo, na área de telecomunicações, aos poucos, os imigrantes digitais de Prensky puderam ver aquele “orelhão”, que funcionava à base da ficha e em era necessário discar (literalmente) os números, ser substituído por um “orelhão” digital, à base de cartão. Muitos desses imigrantes digitais, assim como eu, quando crianças e adolescentes, colecionavam cartões telefônicos e os organizavam dentro de pastas – inclusive eu tinha a minha própria pasta e ainda hoje consigo me lembrar do seu cheirinho de plástico novo e da sensação de descolar as folhas de plástico que acabavam “grudando” uma na outra – E, viram gradativamente, novamente, esses orelhões praticamente sumirem. Se perguntar para qualquer adolescente “o que é um orelhão?”, há grandes chances de ouvir que é uma orelha grande. Ou seja, esses nativos digitais conhecem muito pouco deste mundo analógico e sua história e, com frequência, se surpreendem ao descobrir como as coisas funcionavam em um mundo sem conexão de internet banda larga.

Orelhão a ficha Fonte: Pinterest

Apesar de gradual, essa mudança de paradigma, o analógico para o digital, pegou muitos profissionais no contrapé. Muitas pessoas que estavam envolvidas em sua rotina, submersas no seu dia a dia, e não se preparam para essa lenta transformação digital. Provavelmente a esse “suave degrade” entre o analógico e digital não tenha chamado suficiente para alguns. Alguns desses cidadãos, pertencente ao grupo dos imigrantes digitais, não aprenderam essa nova forma digital de pensar: não se acostumaram a fazer compras online, evitam ao máximo pagar contas com seu celular, e ainda restam os que não acreditam que relacionamentos nascidos na internet possam vingar – apesar dos “filhos do Orkut” já estarem no ensino fundamental. Esses indivíduos, imigrantes digitais, que não se expuseram a aprender essa linguagem digital e insistem em viver analogicamente num mundo digital, não encontravam grandes problemas ou dificuldades de perpetuar as suas práticas analógicas pois fazendo simplesmente pequenas adaptações, facilmente conseguiam transformar as suas antigas transparências analógicas em slides digitais, podiam também utilizar o datashow como um simples retroprojetor digital. Apesar de andarem cotidianamente com um pequeno computador no bolso insistiam, em seu auge, trocar fotos da família nos novos apps de mensagens e, quando estritamente necessário, enviar um e-mail.  Com a chegada da pandemia e da quarentena forçada pela COVID-19, assim como um refugiado, que é obrigado a, repentinamente, sair do seu país de origem, abandonar o seu lar, as suas práticas e o seu quotidiano, esses indivíduos – que ainda tentavam viver nesse mundo analógico – foram obrigados a “se mudarem” para esse tão evitado mundo digital criando assim o grupo dos “Refugiados Digitais”.

Ao aproximar a visão no grupo dos novos refugiados digitais, nota-se entre eles a presença de muitos professores imigrantes digitais que, em um processo bastante traumático, foram obrigados a abandonar suas práticas analógicas do dia para a noite pois devido a necessidade do ensino remoto, o digital não é mais uma mera opção.  É importante ressaltar que apesar deste texto focar na classe dos docentes, o grupo dos refugiados digitais não se resume apenas a estes. Diversas categorias profissionais que passam pela mesma situação. Alguns destes refugiados digitais já estão em vias de se aposentar e não tem a disposição de, nesta fase da vida, absorver esta “nova” cultura digital. Outros sentem que não tem a aptidão necessária para tal. Existem também os que, apesar de terem ainda um caminho considerável antes de sua aposentadoria, relutam em navegar no meio digital por diversas razões: alguns dizem que a tecnologia é a causadora-mor dos relacionamentos líquidos tão falada por Baumann, sendo assim, precisa ser não somente evitada, mas também, de certa forma, combatida através da imposição de severos limites; outros conseguem enxergar o valor da tecnologia, porém sentem-se desmotivados a usa-la por se sentirem vulneráveis aos frequentes golpes realizados por hackers, vírus e estelionatários digitais; é interessante mencionar o grupo daqueles que contrapõe o termo “digital” com a palavra “real” – dando a impressão de artificialidade ao que acontece neste meio e; também tem aqueles que simplesmente não querem e não justificam o “não querer”.

Finalmente a discussão que até ontem estava presente em grande parte dos congressos pelo mundo afora,  se “DEVEMOS ou não usar tecnologia em sala de aula?”, finalmente foi substituída por “COMO usar a tecnologia em sala de aula?”. Mas o interessante é que esse processo não tem sido complicado somente para os imigrantes digitais de Prensky. Em um grande contrassenso, grande parte dos nativos digitais também estão sendo afetados pois, apesar de serem realmente muito naturalizados com a tecnologia, exploram nela apenas sua face recreativa, muito pouco produtiva e menos ainda educacional. Esses nativos tecnológicos nasceram num mundo tecnológico que ainda luta para descobrir o papel da escola neste novo contexto, onde o professor não exerce mais o papel de “detentor do conhecimento” e grande parte de toda informação existente está ao alcance de seus polegares. Para essa nova geração, não faz mais sentido simplesmente ouvir o professor falar por 50 minutos ou simplesmente receber algumas fórmulas matemáticas e uma lista de exercícios, para estes alunos, ambas atividades poderiam ser resolvidas com mais êxito através de algum app ou vídeos curtos na internet. Sendo assim, neste novo contexto torna-se ainda mais evidente a necessidade do uso de estratégias de aprendizagem da família das metodologias ativas como a aprendizagem baseada em projetos e problemas, aprendizagem em pares, gamificação e tantas outras. De forma resumida e direta, o papel mais importante da escola neste momento, também é o mais óbvio, transformar o indivíduo-aluno em cidadão-estudante, ou seja, em transformá-lo no gestor da sua própria aprendizagem.

Webb nos lembra dessa o potencial dessa ideia ao afirmar que

“Ao enfrentar um desafio, o homem tem a habilidade de aprender sem instrutores. Assim foi como Benjamin Franklin, Abraham Lincoln, Thomas Edison, Henry Ford, os Irmãos Wright e milhares de outras pessoas altamente bem sucedidas educaram a si mesmas. Elas usaram a arte de se auto educar e se auto desafiar.”

 É imprescindível ajudar a geração polegar a usar produtivamente o seu tempo apesar da hiper estimulação de seus eletrônicos, a como se concentrar em uma tarefa sem desviar seu foco, a como usar as novas tecnologias digitais para olhar o mundo e suas relações de forma crítica e, sobretudo, a como transformar e transformar-se por meio dela. Quando a escola lograr êxito em cumprir este papel, certamente os danos causados pelo próximo advento global serão minimizados e a sociedade, como um todo, poderá estar mais bem preparada.

Referências:
Prensky, M. (2001). “Digital Natives, Digital Immigrants”. On the Horizon, v. 9, nº. 5, pp. 1–5, http://www.marcprensky.com/writing/default.asp.
Moura, A. M. C. (2014) “Geração Móvel: um ambiente de aprendizagem suportado por tecnologias móveis para a Geração Polegar”.
Webb, Bob.  Self Education – The Lost Art”, Motivation Tool Chest, motivation-tools.com, Março 2014

Sobre o autor:
Mestre em Educação Escolar (UNESP), Formação Especial para Professores da EPT (CEETEPS),  Especialização em metodologias ativas (HAMK UAS/Finlândia) e Formação de Formadores (Tampere Universty of Applied Sciences/Finlândia), Especialista em Redes de Computadores e Tecnólogo em Redes de Computadores (UNIMEP). Desenvolve pesquisas sobre metodologias ativas  e novas tecnologias para a formação de professores. Como analista de TI atuou em grandes projetos internacionais em empresas como IBM, Michelin, John Deere e outras.  No Instituto Federal de São Paulo atua como coordenador da pós graduação em temas transversais e docente da área de Informática. Recebeu em 2019 os reconhecimentos de “Talento da Educação” pela Fundação Lemann e “Google Innovator” pelo Google. É o criador do maior podcast sobre educação do Brasil, o “Podcast Papo de Educador”.

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