Pedagogia da Contingência – um socorro em tempos de coronavírus | Artigo

Por Ana Paula Gaspar

Começar devagar pode ser um bom conselho para todos, mesmo para quem tem o privilégio de estar assistido por completa infraestrutura e por acesso à educação de qualidade.

Ainda era começo de março, quando comecei a ler relatos de professores ao redor do mundo sobre suas experiências com o fechamento de escolas. Foi tudo tão rápido, que, no dia 10 de março, eu já estava diante da necessidade de um “plano de contingência” para um possível fechamento de escolas no Brasil. O plano veio, e junto com ele um texto em que utilizei pela primeira vez o termo “Pedagogia da Contingência”. A expressão não é nova, nem foi criada por mim. Em pesquisa rápida, após esse turbilhão das primeiras semanas de coronavírus no Brasil, descobri que o vocábulo já foi empregado por pesquisadores na área de educação de cultura visual e por uma pesquisadora sobre a “morte e o luto” no contexto escolar.

No último episódio do Podcast Papo de Educador (Educação a Distância em Tempos de Coronavírus | PdE 95), voltei a conversar sobre a Pedagogia da Contingência com Damione Damito e algumas características emergiram. Gostaria de retomá-las aqui e enriquecer com mais alguns pontos.

1- Contingência

A imprevisibilidade é a marca desses novos tempos. Até mesmo antes do fenômeno da COVID-19, ouvíamos sobre o tal mundo VUCA. Uma pandemia global surge e coloca-nos exatamente dentro de um mundo volátil, incerto, complexo e ambíguo; um fator que foge ao nosso controle acelera transformações em instituições consolidadas e com um modus operandi definido e, até então, imutável. Escolas sem estudantes e professores é nosso caso.

Uma ambiguidade que está posta é a velocidade com a qual fechamos nossas escolas e desenhamos nossos “planos de contingência” e a necessidade de desacelerar para, justamente, aprender. Pesquisadores, profissionais de educação e educadores ao redor do mundo estão enfatizando a importância de deixar bem marcada a diferença entre a experiência escolar e o que convencionamos chamar de educação on-line. Felizmente há muito mais pessoas alinhadas com esse entendimento do que quem acredita que basta ligar o computador e começar a transmitir aulas síncronas para estudantes em suas casas.

Nossas redes sociais estão inundadas com pedidos de ajuda de famílias e professores sobre o que fazer neste momento, e soluções generosas surgem de uma comunidade viva que está disposta a apoiar a sociedade na resolução dos problemas trazidos pela pandemia. No entanto, menos é mais. Começar devagar pode ser um bom conselho para todos, mesmo para quem tem o privilégio de estar assistido por completa infraestrutura e por acesso à educação de qualidade.

2 – Complexidade

“É preciso uma aldeia inteira para educar uma criança.” O famoso provérbio africano ecoa em tempos de pandemia e nos lembra da questão da complexidade. Não se fala em educação e seus problemas sem levar em consideração a complexidade envolvida nos cenários de múltiplos sujeitos, relações, circunstâncias, expectativas, impactos, fazeres e realidades. Enquanto um debate ferrenho é travado entre a Economia e a Saúde, como se fossem inimigos um do outro, a educação padece mais uma vez de desigualdades históricas.

Não é nenhuma novidade que fatores socioeconômicos determinam o sucesso acadêmico de estudantes em qualquer parte do mundo. Nesse sentido, trata-se não somente de questionar se professores sabem dar aulas on-line ou se as famílias terão desconto nas mensalidades, muito menos sobre como avaliar a educação a distância para ensino básico. Talvez nossas principais questões pudessem passar agora por um desejo utópico, porém urgente, de alcançar educação de qualidade para todos.

3-  Transformação

Nenhum de nós voltará às rotinas educacionais da mesma forma que eram quando deixamos nossas escolas.

Nenhum de nós voltará às rotinas educacionais da mesma forma que eram quando deixamos nossas escolas. Pensadores contemporâneos insistem em nos dizer que esse será o principal fato do século XXI. Quais certezas serão colocadas em cheque? Quais tradições serão reforçadas? Quais negociações entre o antigo e o novo faremos, a fim de transformar a educação após o episódio da pandemia?

Estamos todos envolvidos em responder a essas perguntas e refazer outras. Quais são as suas perguntas para a Pedagogia da Contingência? Compartilhe conosco.

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