Bacalhau na Geladeira #8 – Educação 4.0

Ela não estará centralizada em uma sala de aula, ela estará dispersa, imperceptível. Acontecerá no trabalho, na casa, em projetos, no lazer etc. Não estará presa nem a um professor, nem a um local tampouco a um material. Estará tão conectada com o nosso dia-a-dia que será imperceptível.

 

Tenho refletido muitas coisas sobre a educação aqui e visto alguns paralelos. Vou compartilhar um deles, pode ser uma completa viagem minha, mas garanto que será no mínimo interessante. Falei algumas vezes das mudanças que a educação vem sofrendo e também critiquei os modos tradicionais de ensino nesse blog. Um dos paralelos que me veio à mente, foi quando estava tendo uma aula sobre e-learning. Na aula, um dos pontos foi a evolução da web, a diferença entre web 2.0 e a 3.0. Eu já dei aula sobre isso no IFES. Gosto muito desse assunto, principalmente quando relacionado a web semântica. Ao rever esses conceitos me veio um estalo na cabeça, um sopro de inspiração chegou. Eu relacionei a evolução da web com a evolução da educação, a que eu imagino que ocorrerá.

A primeira versão da web, a web 1.0, é aquela que nós usuários éramos apenas consumidores de informação. Na época do “Cadê” nenhuma informação era registrada por nós. Quem registrava era um administrador de um site, uma pessoa de perfil técnico, o webmaster, que entendia das tecnologias necessárias, e que periodicamente alimentava os sites. O sentido da informação era unilateral, apenas do produtor para os consumidores. Nessa época, existiam poucos sites se comparado com hoje. O número de pessoas que acessavam era bastante pequeno também. Internet era uma coisa restrita. Os sites eram como livros, estáticos, um repositório de informação, usado apenas para consulta. Não havia interação.

Junto com a Web 2.0 veio a popularização da internet. É a fase em que estamos. Ela passou a ser mais acessiva por todos. É a era da colaboração na internet. Todos são produtores e consumidores de informação. O conteúdo não está mais estático, mas em constante alteração. E nós, usuários participamos disso. Usamos wikis, como o Wikipédia, fóruns, redes sociais etc. Nós agora participamos da construção do conteúdo da internet. Essa fase mais participativa da internet também atraiu mais adeptos. Todos tem um perfil no Facebook, todos tem e-mail etc. Todos querem estar conectados e de certa forma interagir. A internet agora está mais viva.

A Web 3.0 é uma evolução da internet por meio de tecnologias semânticas. É o que está começando a acontecer. As máquinas estão passando a entender melhor o conteúdo das páginas, textos, vídeos, imagens etc. A internet vai passar a “entender” mais claramente o significado das coisas. Com isso, pesquisas e buscas ficarão mais precisas, mais personalizadas. Será a internet “inteligente”. Hoje já vemos sugestões de produtos nos sites, propagandas personalizadas em função dos nossos interesses e pesquisas.  A web 3.0 inverte a lógica do fluxo da informação, ao invés de nós procurarmos a informação, ela nos procura. A informação que nós precisamos virá até nós.

A Web 4.0 está um pouco mais distante, mas pelo que tudo aponta, será a web dos agentes inteligentes. Será povoada por agentes artificiais, inteligentes, autônomos e independentes que navegarão pela internet. Eles farão buscas, tomarão decisões e terão intenções. Será a web ubíqua, presente em todos os lugares e ao mesmo tempo de forma dispersa. Será a era da internet mais física, mais presente no dia-a-dia, a chamada internet das coisas. Nesse ponto, é provável que a internet fique espalhada nos objetos ordinários, nos eletrônicos e eletrodomésticos como geladeira etc. Objetos e equipamentos terão sensores, terão identificadores como o RFID. Os nossos equipamentos estarão conectados e além disso conversarão entre si. Geladeiras conversarão com fogões quem por sua vez, conversarão com automóveis, que conversarão com rodovias e por aí vai. Nesse momento, a internet será imperceptível. Não vamos acessá-la por meio de um lugar apenas, uma tela de computador ou celular. Ela será acessada no nosso dia-a-dia. Meio ficção científica, né? Mas tudo indica que será real em alguns anos.

Bom o que isso tem a ver com a educação, qual o paralelo entre a web e a educação. Da mesma forma que a web, a educação 1.0 é a educação restrita, rígida e estática. O conhecimento é centralizado e caminha em apenas um sentido. Existem poucas pessoas que acessam esses conhecimentos e não existe muita dinâmica.

A educação 2.0 é a colaborativa. Todos são produtores e consumidores de conhecimento. Todos interagem. Ela é bem mais atrativa, bem mais interessante e dinâmica. Todos querem estar conectados a ela, saber o que está acontecendo. A construção do conhecimento é colaborativa, como ocorre com a Wikipédia. A educação 3.0, é a educação inteligente, personalizada. É a educação centrada no aluno, em suas necessidades, em seu perfil e em interesses. O conhecimento necessário irá até o aluno, assim como anuncios de nosso interesse estão chegando até nós.

Já a educação 4.0 é a educação ubíqua, distribuída. Ela não estará centralizada em uma sala de aula, ela estará dispersa, imperceptível. Acontecerá no trabalho, na casa, em projetos, no lazer etc. Não estará presa nem a um professor, nem a um local tampouco a um material. Estará tão conectada com o nosso dia-a-dia que será imperceptível. Creio que um dia a educação estará tão integrada com o nosso dia a dia que todos participarão dela e ela ocorrerá a todo momento. A educação não estará centralizada em uma figura como o professor.  Esse futuro não será mais a era dos professores “webmaster”, mas sim dos professores “jedi master”.

Impossível, alguns podem pensar. Será? lembram-se do Proacademy, a escola engraçada que não tinha professor e não tinha nada? Pois é, esse é um exemplo de escola que desapareceu mas se tornou ubíqua. A informática em diversos momentos copia a realidade. Nesse caso acho que acontece algo parecido, mas com a internet um pouco na frente do caminho. A internet está caminhando nesse caminho, por que a educação também não? Ou será que a internet está no caminho errado?

Posso estar viajando, mas não tanto assim. Nunca ouvi ninguém falando desse conceito de Educação 4.0. Eu tirei da minha cabeça agora escrevendo (vou patentear). Falei com tanta “firmeza”, mas não tenho tanto assim. Ou pode parecer que conversei com a Mãe Diná para tentar prever o futuro. Não conversei com nenhuma cartomante. Apenas estou me dando a liberdade de pensar em um futuro possível, sem me apegar a restrições. Dei asas a minha imaginação agora. Aliás, eu acredito que não estou apenas pensando no futuro da educação em vão, tendo devaneios, mas acredito que isso é muito importante para ajudar a construir esse novo futuro.  A melhor maneira de prever o futuro é construindo-o, não é? Vamos juntos construir esse futuro?

Um abraço.

Os textos da série “Bacalhau na geladeira” refletem a visão em primeira pessoa do Professor Rodrigo Calhau que esteve na Finlândia participando de um programa de especialização em práticas pedagógicas inovadoras na HAMK University of Applied Sciences em Hameenlina, cidade localizada a aproximadamente 100 km ao norte da capital Helsink e foram escritos entre Fevereiro e Julho de 2015. O nome da série “Bacalhau na Geladeira” corresponde a uma brincadeira com o sobrenome do autor e o clima frio do inverno finlandês.

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