Bacalhau na Geladeira #5 – Proacademy (Parte 2)

“É realmente uma escola diferente, ou uma escola muito engraçada: não tinha sala, não tinha professor, não tinha currículo, não tinha grade, não tinha “nada”.”

 

Olá Pessoal!

 

Já leram a primeira parte desse artigo? Caso não, deem um pulinho lá antes clicando aqui.

 

Vamos lá? Algumas coisas que descobri sobre o Proacademy através de mil e uma perguntas…

Como é a avaliação? Todos avaliam todos. A equipe avalia o aluno, que também se avalia, o coach e os parceiros externos avaliam todos também. A medida que os pré-requisitos do curso são cumpridos (por meio de horas em projetos, leituras, workshops, horas de trabalho etc) o aluno vai declarando suas realizações em uma planilha do Excel, simples assim. Não há uma prova ou um teste para saber se o aluno realmente aprendeu. Ninguém verifica se o declarante agiu ou não de má fé. Os professores confiam nos alunos e vice-versa.

E do os conteúdos? Quadros curriculares? Tudo fora do quadrado… Eles possuem total liberdade. E isso exige também responsabilidade. Os alunos devem gerir os projetos financeiramente, fazer contratos, entregas para os clientes, gerir despesas e lucros. Cada um é livre para se especializar na linha que preferir, participar do projeto que preferir: marketing, gestão, modelagem de negócios etc. O aluno faz seu próprio currículo.

Impressiona esse nível de liberdade. É um modelo que não coloca todo mundo num mesmo pacote. Nessa liberdade de escolher o próprio currículo está também o respeito a individualidade, a diferentes competências de cada um, e principalmente a confiança no potencial do aluno. Assim não acontece de o peixe ser avaliado pela capacidade de subir em árvores, como Einstein diz.

“Todo mundo é um gênio. Mas se você julgar um peixe por sua capacidade de subir em uma árvore, ele vai gastar toda a sua vida acreditando que é estúpido” Einstein

É realmente uma escola diferente, ou uma escola muito engraçada: não tinha sala, não tinha professor, não tinha currículo, não tinha grade, não tinha ¨nada¨. É muito diferente do que fomos condicionados a pensar que seja uma escola. Às vezes achamos que precisamos de modelos mágicos, complexos, para resolver as coisas e melhorar o campus ou a instituição. Na verdade, o Proacademy, apesar de não ter aquilo que parece ser básico à escola, tem o principal, algo que perdemos nos modelos pedagógicos tradicionais. Eles possuem alunos motivados, engajados, empolgados, participantes, responsáveis etc. Não estou falando que o ensino no Proacademy é perfeito e não tenha problemas, nem que o ensino tradicional seja de todo ruim, mas é importante a reflexão frente um novo modelo.

Obviamente está faltando algo no ensino. Por que será que os principais inovadores da área de computação e tecnologia não fizeram ou nem terminaram a graduação? Por exemplo, Mark Zuckerberg, Steve Jobs, Bill Gates e Michael Dell? Não só eles, vários gênios da história da humanidade não passaram por uma educação formal e mesmo assim fizeram coisas extraordinárias. É fato que precisamos melhorar. Mas será que estamos prontos para romper com nossa cultura tradicional de ensino e inovar como o Proacademy?

Ambiente de autonomia e criatividade. Fonte: Arquivo pessoal

Estamos dispostos a abrir mão de elementos tradicionais para criar um cenário novo? Abriríamos mão de nossa posição de hoje, caso isso permitisse uma participação bem mais atuante e presente dos alunos? Será que não estamos ocupando tanto espaço enquanto educadores que não deixamos espaço para os alunos crescerem? Será que nós professores estamos preparados para perder toda a atenção que recebemos quando estamos na frente do quadro e todos os alunos nos olhando, se isso melhorar a educação? Será que estamos preparados para uma escola sem professor, sem aula, sem classe, sem horários, caso seja necessário? Sei que é complicado, fomos educados também nesse modelo tradicional, mas as vezes acho que estamos acomodados.

Independentemente do que for, com relação a nossa posição de “detentores e transmissores do conhecimento”, eu creio que já estamos perdendo esse posto. A sociedade está mudando em diversos aspectos e creio que é um caminho sem volta. O que faremos a respeito disso? A sociedade está exigindo uma mudança no modo de ensinar e educar as pessoas. O que iremos propor para ela?

Bom eu fiquei bastante impressionado com esse modelo. Para mim, que já trabalho com ambiente não formal de aprendizado, foi um choque! Eu levei um tapa! Até agora foi o que mais me impressionou. Lembrei da música do Pink Floyd “Another brink in the Wall”. A música diz: “Nós não precisamos de educação, nós não precisamos de controle do pensar”. Pelo que parece, os alunos do Proacademic não precisam realmente de nossa educação tradicionalista. Eles não dependem de nós. E nesse ambiente, os professores já assumiram uma nova posição, já deixaram alunos em “paz”, como pede a música, em um bom sentido, é claro. Os alunos já não são apenas mais um tijolo no muro… Aliás, que muro?

Continuem acompanhando o “Bacalhau da Geladeira”. Vejo vocês na próxima. Abraços!

 

Os textos da série “Bacalhau na geladeira” refletem a visão em primeira pessoa do Professor Rodrigo Calhau que esteve na Finlândia participando de um programa de especialização em práticas pedagógicas inovadoras na HAMK University of Applied Sciences em Hameenlina, cidade localizada a aproximadamente 100 km ao norte da capital Helsink e foram escritos entre Fevereiro e Julho de 2015. O nome da série “Bacalhau na Geladeira” corresponde a uma brincadeira com o sobrenome do autor e o clima frio do inverno finlandês.

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