Bacalhau na Geladeira #4 – Proacademy (Parte 1)

Bacalhau na Geladeira #4 – Proacademy, parte 1

 

“Paradoxalmente, não havia nada de complexo ou extraordinário no que vi. Simples: o mais chocante foi o que não vi! O diferencial está no que a universidade deixa de ter.”

 

Olá Pessoal!

Chegamos à quarta postagem da série “Bacalhau na Geladeira”. Tema de hoje: Proacademic.

Na última quarta-feira eu levava algumas porradas e voadoras na cara para ver se acordava: visitei a Universidade de Ciências Aplicadas de TAMK em Tampere. Lá, conheci o Centro de Empreendedorismo Proacademic ou ProAkatemia, em finlandês, uma escola de empreendedorismo de reconhecimento internacional.

E fiquei maravilhado com o que vi, tamanha a mudança de paradigma que representa. Paradoxalmente, não havia nada de complexo ou extraordinário no que vi. Simples: o mais chocante foi o que não vi! O diferencial está no que a universidade deixa de ter. Bom, e o que NÃO tinha nessa unidade educacional?

Não tinha salas de aula, nem professores, nem grade curricular, nem aulas, nem horários, nada disso. Bom, mas isso não é o essencial? Não é isso que faz uma unidade educativa? A resposta dos meus anfitriões a isso parece que é: não. Então o que é, ou como é, uma escola ou universidade sem isso?

Ambiente de trabalho do Proacademic. Fonte: Arquivo Pessoal

Um professor brasileiro, como eu, que entrar desavisado no prédio onde funciona a Proacademic, jamais imaginaria que se trata de uma universidade. Pensará que é qualquer outra coisa. Talvez desconfie que seja uma incubadora. Há um grande galpão onde funcionam diversas atividades. Cada equipe de projeto é dividida em baias baixas. Não existem muitas divisões no ambiente e muitos equipamentos são compartilhados.

Essa unidade de TAMK oferece cursos de graduação e mestrado na área de Negócios e Tecnologia de Informação. Eles possuem duração de três anos e meio. Os alunos aprendem tudo na prática por meio do trabalho em conjunto. É um ambiente bastante divertido, multidisciplinar, configurado de maneira a promover o maior conforto e bem-estar do grupo envolvido no processo educativo. Assim, sofás, pufes e mesas redondas são peças comuns no mobiliário.

Sofás, post-its e divisórias baixas: Ambiente confortável para colaboração. Fonte: Arquivo Pessoal

Apesar da ausência de divisórias no galpão, cada equipe tem um espaço delimitado, organizado pela disposição de suas mesas, cadeiras, etc… E é muito significativa a diferença de características dos espaços de cada equipe. Ao que tudo indica, as pessoas tinham a liberdade de customizar seus ambientes. Bem diferente do nossas salas de aula, tão neutras.

Bom, como já disse, é uma unidade de ensino que não tem sala, não tem horário, não tem aula, não tem professor. Mas, então, o que há? Lá existem projetos reais, com clientes reais, que envolvem investimentos financeiros e pessoais, realizados por equipes de alunos. E só! Os alunos que dão ideias e propõem os projetos.

Mas e os professores? E o conteúdo? E o currículo? Vamos por partes… Os professores atuam como coachs (treinadores), ou seja: promovem, envolvem, participam, incentivam e avaliam os resultados dos projetos. Eles recebem treinamento para isso. Os conteúdos são dirigidos pelas necessidades de resolução de problemas e é o próprio aluno que escolhe. Na verdade, ele define o próprio currículo. Suas atividades são divididas da seguinte forma: 25% de estudos e leituras (o aluno deve ler 85 livros no mínimo), 35% de participação em projetos, 15% em seminários, 5% em workshops e atividades de inovação e 19% de reuniões e trabalhos em grupo. Há uma rede de profissionais do mercado e gestores das empresas parceiras que ajudam como espécies de mentores voluntários, fornecendo aos alunos os relatos de suas experiências. Todo o ensino é integrado com empresas do mercado. Eles possuem uma forte rede de colaboração.

O foco principal é na formação de competências para a vida profissional como um todo. Por exemplo, trabalho em grupo, empreendedorismo, comprometimento, geração de novas ideias, adaptação e rapidez nas mudanças, networking, dentre outras. Isso tem dado resultados: 25% dos egressos continuam atuando ativamente como empreendedores e várias empresas já foram criadas por eles.

O ensino é gratuito, mas são os próprios alunos que mantém o aluguel da estrutura da unidade – achei isso maravilhoso! Não existem fórmulas mágicas lá. Eles usam uma estrutura horizontal, colaborativa, onde todos fazem um pouco de tudo. É um ambiente autogerenciado, com equipes autogerenciadas. São os próprios alunos inclusive que selecionam novos alunos.

 No momento de perguntas e respostas com os alunos, quem nos recebeu foram os do primeiro e do segundo ano de curso. Quando perguntei pelos organogramas, processos, padrões, métodos, ou coisas do tipo a resposta a tudo o que eu perguntava era: “Depende”. Eles não tinham certezas sobre os próprios métodos. Tudo está em (re)construção constante. Mas das perguntas (muitas) que fiz e das outras respostas (surpreendentes) que obtive falaremos no próximo post! Por enquanto, vocês podem acessar esse vídeo explicativo do Proacademy e também o próprio site deles.

Bate papo com os alunos. Fonte: Arquivo Pessoal

Vamos ficar ligados! Tem muita notícia pela frente… Continuem acompanhando o “Bacalhau da Geladeira. Vejo vocês na próxima. Abraços!

Os textos da série “Bacalhau na geladeira” refletem a visão em primeira pessoa do Professor Rodrigo Calhau que esteve na Finlândia participando de um programa de especialização em práticas pedagógicas inovadoras na HAMK University of Applied Sciences em Hameenlina, cidade localizada a aproximadamente 100 km ao norte da capital Helsink e foram escritos entre Fevereiro e Julho de 2015. O nome da série “Bacalhau na Geladeira” corresponde a uma brincadeira com o sobrenome do autor e o clima frio do inverno finlandês.

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