Bacalhau na Geladeira #03 – Mão na Massa

Fotomontagem mostra o professor Rodrigo Calhau com a mão no queixo olhando para cima em pose de reflexão, ao fundo, uma mesa com ferramentas como alicates e chaves de aperto e martelos. A direta da imagem uma geladeira aberta.

“Na minha visão, os problemas reais são a cola que juntam pesquisas, disciplinas, professores de diferentes áreas, empresas, governo.”

 

Olá a todos,

Como estão? Já chegamos à terceira postagem do “Bacalhau na Geladeira”. A geladeira já está começando a derreter com a chegada da primavera. Acho que em breve mudarei o nome da série para “Bacalhau no Jardim”. Melhor não. No texto de hoje falarei sobre a importância dos educadores se envolverem em problemas reais. Tais reflexões foram reforçadas essa semana aqui no programa.

Final de inverno na Finlândia, o gelo já começa a derreter. Fonte: Arquivo pessoal

Na sexta-feira passada, tivemos uma discussão sobre comunidades de aprendizagem, com base no projeto da professora Sheylla Chediak (IFRO). De uma maneira simples, as comunidades de aprendizados profissionais são grupos de professores ou outros profissionais que compartilham os mesmos objetivos acadêmicos e que colaboram nas atividades educacionais. Esse grupo é baseado na colaboração e na multidisciplinaridade.

Ao discutir sobre as comunidades de aprendizagem, foram levantadas algumas questões interessantes. Por exemplo, como utilizar uma plataforma (computacional, no caso)? Ou como envolver professores e outros profissionais de diferentes áreas para colaborarem?

Nessa ocasião fiz um breve depoimento sobre o LEDS sobre como temos conseguido envolver professores de diferentes áreas para colaborarem entre si. Disse também que, na minha opinião, um dos fatores que contribuí para isso é o fato que tentamos uma aproximação com a comunidade para resolver problemas reais. A partir dessa colocação, eu continuei refletindo sobre essa questão e me lembrei de uma conversa com outro professor aqui do programa. Conversando com o professor de matemática Diego (IFRS), ele me disse algo interessante, em sua opinião, a matemática, na verdade, é uma provedora de serviços. É como uma ferramenta. Achei interessante aquela colocação e disse-lhe que via a computação da mesma forma, como um meio e não como um fim.

Eu acho que cada disciplina pode ser vista assim, como uma ferramenta. Fazendo uma analogia: a Matemática pode ser um martelo, a Química um serrote, Computação uma pá e a Administração uma furadeira… não importa! Quaisquer que sejam as metáforas que escolhermos para fazer representar essa inclinação das disciplinas a servirem a diferentes causas, sempre devemos entender com isso que elas estão a serviço de outras questões além do puro aprendizado delas mesmas.

Cada uma delas tem pontos fortes e fracos. A cada situação diferente, uma delas pode ser mais adequada, ou mesmo um conjunto delas. Para resolver problemas pontuais e pequenos, apenas uma delas pode necessária, como pregar um quadro na parede. Entretanto, para tarefas mais complexas, é necessária a utilização de várias delas, não apenas uma. Construir um prédio não será possível usando apenas uma pá ou um martelo. Teremos que usar nesse caso um conjunto de ferramentas de modo combinado. As ferramentas terão que “conversar”. Os manipuladores delas, nem se fala, devem interagir mais ainda. Nesse caso, o “problema” chamado “construção do prédio” permitiu a interação ou uso conjunto das ferramentas.

Na minha visão, os problemas reais são a cola que juntam pesquisas, disciplinas, professores de diferentes áreas, empresas, governo. É o que dá a liga e motiva o trabalho conjunto. É justamente nesse ponto que vejo a importância da extensão na educação. Para muitos, a extensão é o patinho feio, é perda de tempo, o trabalho braçal. Mas é ela que vai possibilitar o contato com os problemas reais da comunidade. As universidades são muito boas para formar especialistas em uma única “ferramenta”. Só que, as vezes, a especialidade é tanta que fica difícil até de usar a “ferramenta”. Além disso, para um especialista em martelos pode ser difícil entender a importância do serrote. Assim, para ele tudo se torna prego, ou pensa que martelo pode resolver tudo sozinho.

Momento de colaboração na HAMK Univesity of Applied Sciences em Hameenlinna. Fonte: Arquivo Pessoal

É impossível construir um prédio assim. Foi justamente essa situação que me veio à mente durante a discussão sobre comunidades de aprendizagem e o problema da integração de professores de diferentes áreas. Por isso acredito muito na importância de iniciativas como o LEDS dentro do IFES. O ambiente está ainda dando seus passos inicais, em seus 2 anos de vida e já tem mostrado resultados interessantes. O LEDS é uma iniciativa que procura utilizar as várias ferramentas possíveis na solução de problemas, envolvendo diferentes especialistas. O nosso primeiro problema real que tentamos resolver foi o de construir o Sincap, um sistema de informação para agilizar o processo de captação de córneas para o CNCDO (Central de Notificações, Captação e Distribuição de Órgãos) do Estado.

Com esse projeto trouxemos a comunidade para dentro da instituição para colaborar. Depois que começamos, conseguimos juntar professores de diferentes áreas. Conseguimos uma interação entre IFES e UFES, entre os cursos de Sistemas de Informação (IFES) e Design (UFES), envolvendo alunos das duas instituições em um trabalho conjunto. Conseguimos juntar dois cursos do nosso próprio campus, Sistema de Informação e Engenharia de Automação, que há anos não conversavam muito. Conseguimos juntar professores e pedagogos, que ajudaram em diversas questões com os alunos. Conseguimos envolver professores de humanas nos projetos tecnológicos. Fizemos parceria com o CEFOR (Centro de Referência em Formação e em Educação a Distância), que fizeram vídeos sobre o Sincap e LEDS. Conseguimos colocar em um mesmo ambiente alunos do nível superior e técnico dos cursos de informática. Publicamos ainda artigos científicos baseados nesse problema real em parceria com os laboratórios de pesquisa, isso sem falar nas parcerias que iniciamos recentemente com outros campi. Enfim, estamos quebrando vários paradigmas, várias barreiras e vários muros também, que nem deveriam existir (lembram-se dos muros?).

Vejo que essa colaboração entre diferentes professores e profissionais que tem ocorrido no LEDS se encaixa sim no conceito de comunidades de aprendizagem que tenho visto aqui. Temos conseguido colaborar para melhorar o ensino. Isso tem sido muito importante. Acredito ainda que temos conseguido esses resultados principalmente por causa de nosso envolvimento na resolução de problemas reais. A extensão tem um papel importante nesse contexto, “dando um chão” para a educação como um todo. É minha visão.

Não deixem de participar com dúvidas, comentários e perguntas. Por enquanto fico por aqui, está sendo um prazer compartilhar tudo isso com vocês. Um forte abraço a todos, até a próxima postagem.

 

Os textos da série “Bacalhau na geladeira” refletem a visão em primeira pessoa do Professor Rodrigo Calhau que esteve na Finlândia participando de um programa de especialização em práticas pedagógicas inovadoras na HAMK University of Applied Sciences em Hameenlina, cidade localizada a aproximadamente 100 km ao norte da capital Helsink e foram escritos entre Fevereiro e Julho de 2015. O nome da série “Bacalhau na Geladeira” corresponde a uma brincadeira com o sobrenome do autor e o clima frio do inverno finlandês.

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